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Alta gastronomia França no Brasil

Revolução francesa


Por Celso Arnaldo Fotos Wellington Nemeth Assistente Leandro Cardial Produção Tereza Galante

Baba ao Rum Pâtisserie Douce France Chef Patissier Fabrice Le Nud. Uma receita clássica francesa com o toque tropical das frutas

Se este é o ano da França no Brasil, este é o ano deles. Em diferentes épocas, os cinco chefs reunidos por GoWhere Gastronomia - inquestionavelmente os mais influentes chefs franceses no Brasil - deixaram a mais rica gastronomia do mundo para se aventurar no Brasil, onde, quando chegaram, não havia sequer um bom azeite e uma boa manteiga. Com paixão pelo ofício e a base técnica de uma cozinha secular, eles superaram os problemas e acrescentaram novos temperos à alta gastronomia brasileira. Aqui se radicaram, casaram e tiveram filhos brasileiros. Esta é a história de cinco triunfos da França no Brasil

Fabrice Le Nud
Pão francês, paixão brasileira

A data da chegada ao Brasil está registrada na memória: primeiro de março de 1989. O jovem chef da região de Dreux, na Normandia, veio ao Brasil para cuidar das cozinhas do Hotel Intercontinental, no Rio. Tinha 25 anos e um mundo pela frente - mas um mundo polvilhado com farinha e enriquecido com fermento. No sangue, corria a pâtisserie - a arte francesa da confeitaria. Por influência da mãe e contra sua vontade, começou cedo, ainda quase menino. "Ela sabia das coisas. Dizia que todo mundo tem de comer.

Meu irmão já era garçom. E insistiu que eu me tornasse padeiro ou confeiteiro, sempre um bom negócio", recorda Fabrice, que bateu o pé e ouviu da mãe: "Casese primeiro. O amor vem depois. De fato, acabei me apaixonando pela confeitaria, um universo amoroso e perfeccionista sem limites". Fabrice está há 30 anos no ramo - um recorde. Ao contrário dos chefs de cozinha, acorda com as galinhas. E dorme cedo. Alguém tem de chegar de madrugada para preparar a base dos croissants e a massa folhada. E esse alguém ainda é ele.

Autodidata, hoje sabe tudo dessa que é a mais rigorosamente técnica das artes gastronômicas francesas. Ou quase tudo: "Sempre há muito o que aprender. Sempre surge alguém mais criativo, como um Kasparov no xadrez, que desenvolve novas formas de ataque". E a maior vantagem de ser confeiteiro? "Fazemos alimentos sempre associados a momentos felizes - batizados, casamentos, aniversários. Tudo isso tem o dedo do confeiteiro. Nós só convivemos com a festa. Servimos gente feliz à procura de mais prazer". Sua trajetória no Brasil foi sempre na direção de conhecer e se encantar cada vez mais pelo País.

Quando terminou seu contrato com o Intercontinental, Le Nud pegou a mochila com um muda de roupa e livros de confeitaria, e foi para o norte, sozinho. Estava com o visto vencido, portanto clandestino, e rodou seis meses pelos confins do Amazonas, Piauí, Rondônia. Descobriu as frutas e a verdadeira dimensão do Brasil. "Não basta ler que o Brasil é 16 vezes a França. É preciso conhecer esses Brasis".

E Le Nud conheceu de perto quase todos eles. Retornando à França depois dessa excursão, só voltaria ao Brasil seis anos depois, em 1997, para a abertura do Sofitel, em São Paulo. E já prospectando o mercado para um negócio próprio, onde ele pudesse exercer toda a sua paixão pela confeitaria. A Pâtisseria Douce France é esse sonho que não acabou.

Erick Jacquin
Denominação de Origem Controlada

Ele é um dos caçulas dessa invasão francesa no Brasil. Está no Brasil desde 1995, quando tinha 29 anos e veio trabalhar com o pioneiro da cozinha francesa no Brasil, Vincenzo Ondei, no célebre Le Coq Hardy. Pretendia ficar aqui só três anos, a fim de levantar capital para montar um restaurante na França. Nunca mais voltou - a não ser a passeio. "Adorei, me senti bem, foi um belo passo na minha carreira". Foram quatro anos e meio de Coq Hardy, depois cinco anos no Café Antique.

Há cinco, Jacquin comanda casa própria - a Brasserie que leva seu nome e é uma das casas francesas mais sofisticadas da cidade. Até seus conterrâneos "rivais" - embora sejam todos amigos em torno de uma cervejinha na madrugada, com exceção de Le Nud, que estará dormindo a esta hora - reconhecem que Jacquin é o mais autêntico chef francês no Brasil. Nunca fez concessões. Ele mesmo concorda: "A maioria dos restaurantes franceses no Brasil são francobrasileiros. Prato com jabuticaba não é francês". E todo esse rigor com a autenticidade passa pela imposição de seu gosto pessoal, como convém aos melhores chefs. "Eu só faço o que gosto de comer".

Por extensão, não usa na cozinha nada que não seja de seu gosto. Exemplo: "Odeio canela. Na minha casa não entra nem no cafezinho". O homem que trouxe para o Brasil o hoje modismo do Petit Gâteaux - "uma coisa que parecia dura e virava líquida" - e valorizou o foie gras no País, quer que o cliente se sinta na França quando come em seu restaurante.

Conhecido pela ausência de papas na língua - outro ingrediente que não entra em sua receita - ele tem resposta pronta quando o cliente se queixa do preço da Brasserie: "É caro? O sr. está economizando uma viagem a Paris..." Mas para facilitar o acesso a um menu assinado por Erick Jacquin, ele acaba de abrir o Le Buteque. Comida francesa autêntica - mas num ambiente de confeitaria nova-iorquina, mais simples e mais barata. E uma delícia - registre-se.

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