Rodrigo Oliveira
 Eu só quero mocotó Por Celso Arnaldo Araujo Fotos de Daniel Cancini
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A prateleira com 400 rótulos de cachaça é o cenário do salão principal. Rodrigo dá um toque de chef à tradição da casa, que hoje é um fenômeno |
O mais famoso chef do mundo, Ferran Adrià, esteve aqui em novembro para o Mesa SP e atravessou a cidade rumo à zona norte para conhecer o Mocotó. Bem, na verdade, Ferran não chegou a ir lá, mas essa visita que não houve já virou lenda – e lenda bem consistente. Alex Atala, anfitrião do chef catalão no Brasil, não sai de lá – e só não levou Adrià para comer uma vaca atolada no Mocotó por um problema de agenda.
A casa lota todos os dias e está sempre repleta de celebridades e gourmets. O fato é que o Mocotó – um antigo empório que começou com uma clássica “casa do norte”, virou bar e depois restaurante de comida nordestina – é hoje um dos mais badalados endereços da cidade, embora localizado totalmente off-Jardins. Méritos para seu chef, o jovem Rodrigo Oliveira, filho do fundador e há cinco anos chef da casa, um dos darlings da gastronomia paulistana.
Afinal, qual é o segredo do Mocotó?
Você está no extremo da zona norte de São Paulo, num bairro popular, faz uma cozinha rústica e, no entanto, comanda um dos mais badalados restaurantes da cidade e do País, com fama internacional. Como você explica esse fenômeno?
Já me perguntei isso várias vezes. Faço uma comida do dia-a-dia. Mas, conhecendo melhor a gastronomia que se faz na cidade, a gente modestamente reconhece o nosso valor. Nenhum dos cozinheiros da casa cozinhava antes de chegar aqui, nenhum dos garçons que trabalham no Mocotó tinha atendido uma mesa antes. Há cinco anos, havia três pessoas trabalhando comigo. Hoje, tenho 30 profissionais muito bem formados aqui. Esse é nosso primeiro crédito.
Em 1973, seu pai José Medeiros abriu a Casa do Norte Irmãos Almeida. Um ano depois, cada irmão foi pro seu canto e ele montou o empório Mocotó, aqui na Vila Medeiros, que passou a fazer sucesso com seu caldinho. Como é que você entra nessa história?
Comecei aqui com 14 anos, em 1994 – estou aqui metade de minha vida, portanto. No começo, lavando banheiro, servindo mesa, lavando prato, trocando lâmpada, fazendo relações-públicas. Mas meu pai queria, é claro, ver os filhos formados. Fui fazer Engenharia Ambiental, era uma fase de querer salvar o mundo. Então, seu José Medeiros viajou para Pernambuco para cuidar de uma fazenda que tinha por lá. Eu, com 21 anos, nunca tinha ido a um restaurante na vida. Mas, por intuição, sabia que algumas coisas estavam erradas no Mocotó. Seu José Medeiros rechaçava qualquer sugestão de mudança – mesmo que fosse só a de tirar do caminho umas caixas que precisavam ser arrastadas todos os dias. Larguei a faculdade para ficar aqui. Comecei fazendo mudanças na cozinha, depois no salão. Eram quase 30 anos com pouca ou nenhuma manutenção. Quando chegou de viagem, ele tomou um susto – eu, uma bronca. Mas eu já tinha tomado gosto pela coisa. Não acreditava que fosse colher louros pelas mudanças, que seria acariciado, mas apenas receber algum credito. Como isso não aconteceu, voltei a fazer gestão ambiental.
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Rodrigo Oliveira: metade de seus 28 anos dentro do Mocotó |
E como é que você resolveu largar o meio-ambiente pela gastronomia?
Na faculdade Anhembi/Morumbi conheci uma menina cujo irmão fazia Gastronomia. Eu não tinha idéia do que era gastronomia e que isso se ensinava na escola. Mas começamos a namorar e passei a ler revistas e livros sobre o assunto. Nas biografias dos grandes chefs, havia um lugar-comum: todos contavam que começaram a cozinhar com a mãe ou a avó. Eu não tive esse tipo de infância nem tampouco freqüentava restaurantes. Mas sempre gostei de comer e decidi: vou fazer gastronomia. Já sabia, pela influência do Mocotó, que ia trabalhar com comida brasileira. E o nome da Mara Salles, que era instrutora do Centro de Pesquisas em Gastronomia Brasileira da faculdade, me tocava.
Fui ao Tordesilhas, com a intenção de comer e me apresentar a ela. Eu não sabia nem manejar um guardanapo de pano. Não tive coragem.Voltei depois de me inscrever no vestibular para Gastronomia. Aí tomei coragem. Ela foi supergentil comigo e perguntou se eu já era do ramo – e eu disse que não. Quando ela perguntou o que eu fazia, aí “confessei”: trabalhava com meu pai numa casa nordestina. E ela: “Que legal. Um dia vou lá”. Pensei comigo: “Até parece. No dia seguinte, sábado, ela apareceu com 11 pessoas para almoçar. Adorou, virou nossa madrinha e é uma referência para o que eu faço.
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