Crônica da cidade
 Menu de Gravida Por Celso Arnaldo Araujo
A piada é velha - você notará pelos personagens citados - mas tem tudo a ver com o assunto desta crônica. Dois amigos conversam à toa. Diz o primeiro:
- Tive um sonho estranhíssimo esta noite. Minha mulher estava grávida e, no meio da madrugada, me acordou e pediu que eu fosse comprar uns sonhos de creme numa padaria da Vila Sônia. Estava fissurada. Você sabe: desejo de grávida. Mas meu carro não pegou, não achei táxi e não tinha mais ônibus àquela hora. Acabei indo a pé. Só voltei de manhãzinha. Não é estranho esse sonho?
- Só é - diz o outro. Eu também tive um sonho estranhíssimo ontem à noite, mas foi maravilhoso. Sonhei que estava esperando o ônibus para voltar pra casa quando aparecem no ponto ninguém menos do que a Brigitte Bardot e a Sophia Loren (eu avisei que a piada era antiga. Ainda não existiam a Angelina Jolie e a Jennifer Aniston...). Já foram dando em cima de mim. Acabamos indo nós três para um hotel. Passei uma noite de cinema. Pena que eu estava sozinho. Não dei conta das duas. Ah, se eu tivesse encontrado um amigo...
- E por que você não me chamou?
- Eu liguei pra tua casa. Mas me disseram que você tinha ido comprar sonhos numa padaria da Vila Sônia...
Pois é. Desejo de grávida tem de ser satisfeito até em sonho - mesmo que para isso você tenha de perder uma noitada com duas estrelas de cinema. Mas esse tipo de desejo só costuma se manifestar do quarto mês pra cima. Porque, nos três primeiros meses, o que ocorre para 70% das grávidas é um estado de enjôo quase permanente e repulsa a uma série de coisas, até ao cheiro do marido.
Dizem os fisiologistas que é uma reação sábia e natural do organismo, que repele tudo o que, em tese, poderia fazer mal ao novo ser que está se formando - o que explicaria a aversão, digamos, a um atolado de bode ou a um cheese-tudo com maionese reforçada. Mas nem sempre é assim tão óbvio. Uma colega aqui da redação soube outro dia que estava grávida. E descobriu primeiro não pelos testes de farmácia ou exames de laboratório - mas pelo aviso infalível do organismo feminino quando entra no chamado "estado interessante": o enjôo. E sabem o que ela contou?
Que a coisa que mais lhe provoca engulhos, e uma incontrolável vontade de vomitar, nestas primeiras semanas, é um simples copo de água. Em segundo lugar, uma xícara de um inocente café com leite, que ela não dispensava de manhã e à noite. Intrigado, fui ler mais sobre o assunto. No Manual do Grávido, de Humberto Saccomandi e Claudio Csillag, descobri que, normalmente, a nova grávida logo percebe que tipo de comida ou bebida lhe causa enjôo. E isso varia muito de mulher para mulher.
Como a gastronomia espanhola está super na moda, sugiro dois nomes para a casa: El Buchon ou Barrigón. Imagino o restaurante mais ou menos assim - uma ala para as enjoadas; outra para as que desejam sonhos da Vila Sônia
Pode acontecer de ela pedir um prato muito desejado e subitamente perder a vontade de comer só de vê-lo ou sentir o cheiro dele. Não é frescura. Aliás, as aversões a certos alimentos podem durar até o final da gravidez. Recado dos autores do livro a você, marido: nunca force a barra. Não a paparique, deixe-a enjoar e vomitar em paz. Mulheres preferem fazê-lo sem platéia.
Pois lendo essas coisas, e ouvindo as queixas de minha colega, me ocorreu uma idéia. Não sei se terei tempo e recursos para materializá-la, mas passoa adiante, de graça: um restaurante só para grávidas. Como a gastronomia espanhola está super na moda, sugiro dois nomes para a casa: El Buchon ou Barrigón. Imagino o restaurante mais ou menos assim - uma ala para as enjoadas; outra para as que desejam sonhos da Vila Sônia ou suco de murici com raspas de limão do Tahiti no meio da madrugada.
Na despensa da casa, para as clientes da segunda ala, haveria todo um estoque dessas idiossincrasias de grávida - se bem que os desejos de algumas delas possam surpreender até os mais prevenidos. Soube de uma que tentou convencer o marido a trazer-lhe raspas de tijolo de uma olaria de São Bento do Sapucaí e, como acompanhamento, mel de abelhas africanas da ilha Maurício, no Oceano Índico. Esse marido, pelo que eu soube, ainda não voltou para casa - e o nenê já está com sete anos.
Já na ala dos enjoadas, ou enjoativas, como queira, o menu viria em branco - porque, dependendo da grávida, a simples menção de uma bebida ou um alimento em particular pode desencadear a crise. Nesse caso, o menu do dia seria transmitido oralmente pelo garçom - e só depois de a cliente apresentar a lista do que, só de pensar, já lhe faz mal. Ah, um detalhe: nessa ala haveria mesas individuais, para mulheres que enjoam com a presença do marido. Não sei, não - mas acho que o El Buchon seria um sucesso para durar mais de nove meses.
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