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La vie en rose


A lista de conceitos pouco lisonjeiros é extensa: vinho de mulher, vinho engarrafado antes da hora, groselha com álcool. Mas o rosé, o primeiro vinho produzido pelo homem, que chegou a ter prestígio há 30 anos, está voltando com tudo para ocupar seu lugar como uma celebração ao frescor e à juventude - como prova este teste às cegas promovido por GoWhere Gastronomia


Por Celso Arnado Araujo Fotos Daniel Cancin

Assim como certas mulheres, o rosé é vinho de fases. Há 20 anos, antes da atual enomania, ainda era um sinal de elegância e requinte nas altas rodas, principalmente entre senhoras de fino trato. Alguns especialistas mais cosmopolitas nunca deixaram de cultuar seu frescor e sua delicadeza - mas os neo-enófilos, que se apaixonaram por tintos poderosos, torceram seus narizes para o rosé, que seria um "vinho para moças", que dá dor de cabeça, e, na melhor das hipóteses, é um "vinho inacabado", por causa de seu curto contato com as cascas das uvas, o que lhe dá, em muitos casos, a coloração rosa-pálido. Mas o Brasil está redescobrindo o rosé - e ambos têm tudo a ver. É um vinho jovem, que exala tropicalidade e não exige cerimônia - além disso, combina com quase todas as comidas, inclusive pizza. Não chega a ser um solista - mas acompanha tudo muito bem. E foi em torno de uma majestosa paella do restaurante Dom Curro - uma felicíssima harmonização - que Go Where Gastronomia reuniu seu corpo de degustadores para provar sete rosados de terroirs diversos, da Serra catarinense à Provença, para saber se o velho e "frágil" rosé efetivamente voltou por cima.

O júri Go Where Gastronomia, reunido no Don Curro em torno de sua majestosa paella, provou sete produtos - e brindou à nova fase do vinho rosé

A preparação para nossa degustação rosada tem como cenário o lobby do Dom Curro, onde Raphaël Allemand, epresentante no Brasil de nove produtores da Provence, região que é grande produtora desse tipo de vinho, faz uma pequena palestra sobre os rosados provençais. A adequação do rosé a essa região deve-se ao clima seco e ao mistral, uma corrente de ventos que livra naturalmente as vinhas de uma série de fungos naturais. O rosé é o mais antigo vinho do mundo. É de um tempo em que o suco da uva tinha cor clara - rosada ou branca, fruto de muito pouca ou nenhuma maceração. O rosé foi o vinho dominante até o século 17. O tinto só começou a se sobressair no século 18. Mas os vinhos rosé nunca deixaram de marcar presença na mesa do exigente público francês, que tem acesso a alguns dos melhores tintos "nacionais" do mundo. O rosé é destaque não só nas cartas de vinhos dos bistrôs franceses como nos ambientes domésticos. "Todo francês tem um rosé na prateleira de sua geladeira", resume Allemand. É na geladeira, para conservar o frescor, e por pouco tempo. Rosé é vinho para ser tomado logo. Não é para guardar. Devem ser tomados logo que chegam às prateleiras, já que são mais plenamente desfrutáveis na juventude - tudo nele é jovem: a cor, seus aromas, seus sabores. O francês médio compra três garrafas para consumir ao longo do mês. "Trata-se de um vinho descomplicado, que deve ser bebido jovem, o que facilita a identificação de elementos e faz da degustação algo relaxante", explica Allemand. No resto do mundo, a lenta retomada dos rosés começou pelos espumantes, mas aos poucos está alcançando os rosados tranqüilos. Um dos problemas do rosé fora da França é que, como dizem os especialistas, ele "viaja mal". Por sua delicadeza, fruto desse processo "incompleto" de maceração, o rosé de "exportação" precisa de uma dosagem um pouco mais alta de um fator estabilizante/conservador para agüentar a viagem - no caso, o SO2, enxofre. Em algumas pessoas mais sensíveis, isso pode dar um pouco de dor de cabeça - a má fama que acompanhou os rosés no Brasil algum tempo. Mas a melhora na tecnologia de produção reduziu esse efeito colateral. Com os rosés franceses, sobretudo os da região-mãe, Provence, só vem a refrescância. Seria o rosé, definitivamente, um vinho feminino? De jeito nenhum, retruca um dos jurados: "Mesmo porque, tem mulher com personalidade do cão... Eu diria que é um vinho de conveniência, mais do que feminino".

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