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Belas e feras


A velha máxima de que beleza não põe mesa é desmentida por uma nova geração de profissionais da gastronomia - além de competentes, estas mulheres se impõem pela apresentação. Da recepção à cozinha, passando pelo salão e pelo balcão, elas fazem bonito


Por Celso Arnaldo Araujo Fotos Daniel Cancini_Guilherme Alaïa

BEL COELHO> DE CARA LAVADA

Com cara de menina - e o rosto sempre lavado - Isabel Aranha Coelho, a Bel, já é uma veterana das panelas e, indiscutivelmente, a mais badalada chef do País. Começou aos 17, num estágio com Laureant - para ver (e convencer o pai) se era aquilo mesmo que queria fazer na vida. Era. A cozinha tornouse seu reino, sua praia. Depois de estudar em Nova Iorque, voltou ao Brasil para um estágio no Fasano e uma temporada com Alex Atala. Aos 22, Bel já era chef do Madeleine e dona de bufê. Na seqüência, comandou a cozinha do Sabuji. Após uma temporada de estudos na Europa, voltou de novo - desta vez para sua atual praça, a cozinha da requintada, e já bem-sucedida, filial paulistana do Buddha Bar parisiense. Muita gente só vai comer lá, em vez de só beber, por causa do menu caprichado de Bel - que se consagrou por uma culinária integralmente saborosa, sem penduricalhos para deixar no canto do prato. De tão bonita que é, alguns têm vontade de chamá-la para o salão. E ela circula, de vez em quando, porque faz parte do ofício de uma casa tão chique. "Eu já estive em conflito por causa disso. Hoje em dia, uso minha imagem a favor do empreendimento onde trabalho". E ela não se inibe: "Nunca sofri discriminação por ser mulher, só por minha idade. Pela aparência, as pessoas talvez não viam em mim uma chef - e não por falta de autoridade. Sou dura, mas sem perder a ternura jamais..." E isso não inclui um processo de glamourização na hora de pegar duro nas panelas. Lenço na cabeça, totalmente desproduzida, Bel não faz de sua cozinha uma passarela da Chef Fashion Week. "Sou prática. Esmalte descasca. Pintura desmancha". Cantadas? Ela tira de letra - mesmo porque, quase sempre está namorando. Só houve uma digna de nota - e de trauma. O do cliente de seu bufê, que a contratou como personal chef para um jantar a dois. Chegando ao apartamento do cliente, ela descobriu que os dois, no caso, eram ele e ela... Foi embora antes da sobremesa. E namorado agüenta chef de cozinha que sai do trabalho às 2 da manhã? "Eles já sabem. Saio de madrugada cansada, com cheiro de cozinha. Um dia pretendo ter alguma atividade que me permita ter família, filhos, mas hoje não dá.".

"Os namorados já sabem: saio da cozinha de madrugada, com cheiro de comida"

CHISATO INO>PSICÓLOGA DO SAQUÊ

"No Japão, tudo é cerimonioso, não há essa intimidade brasileira"

O Kinoshita da Vila Nova Conceição, inaugurado há alguns meses, depois de um longo reinado na Liberdade, já é uma das sensações da nipogastronomia em São Paulo. E uma dose de seu sucesso se deve à sua sommelière - naturalmente, especializada em saquê. Chisato Ino, 30, valoriza a carta de saquês da casa com sua expertise e seu requinte genuino. Nascida na província de Chiba, filha de proprietários de restaurantes, foi estudar Psicologia nos Estados Unidos - e, depois de formada, teve de trabalhar para se manter. Optou pelo segmento do negócio da família e foi trabalhar em cantina. Em São Francisco, conheceu um brasileiro, Diogo, que estudava inglês e trabalhava numa pizzaria. Dois anos depois, estavam casados. "Eu queria conhecer o Brasil", conta ela num português ainda carregado. "E viemos casar no Brasil". O casório foi em Brasília, onde Diogo tem família. Decidiram permanecer por aqui. Enquanto o marido ficou no ramo das massas, Chisato voltou à raiz. Tinha feito um curso básico na Califórnia. E é apaixonada por saquês. Mas não se assume como sommelière - o grau máximo de conhecimento na área - em respeito a quem efetivamente já atingiu esse posto. Com a milenar humildade nipônica, diz que prefere ser considerada, no máximo, uma connâisseur. Graciosa, com um cabelinho sempre fashion e seu quimono impecável, Chisato naturalmente desperta comentários e iniciativas dos clientes mais calibrados. Mas ela não se abala. Embora ame o Brasil, nesse item continua japonesa da gema. "No Japão, tudo é muito cerimonioso, não há essa intimidade como no Brasil". Contato físico, nem pensar. Não importa. Chisato, de longe, é a mais bela especialista em saquê de São Paulo.

No novo Kinoshita, Chisato serve um saquê da extensa carta da casa
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