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Orgulho nacional


Por Celso Arnaldo Araujo _ Fotos Thaís Antunes

Ontem, sangue de boi . Hoje, evocação de borgonhas. Foi notável o upgrade dos vinhos nacionais nos últimos 20 anos, com o progressivo melhoramento dos terroirs e da tecnologia de produção, sem falar na paixão e no saber dos novos enólogos. Alguns dos mais conhecidos enófilos da cidade, que têm acesso a virtualmente qualquer vinho do mundo, não escondem seu prazer ao beber um nacional top de linha , defendendo sua qualidae - contra um preconceito que inegavelmente ainda existe - com papila e dentes. Nesta edição de quinto aniversário de GWG, reunimos cinco desses enófilos "nacionalistas" para degustar às cegas 5 tintos premium da safra de 2004 - o ano em que a revista nasceu. O resultado? Mais um show da vinicultura brasileira .

Local: Enoteca e Bistrô Saint VinSaint, que é um achado em São Paulo, a partir do próprio nome - que vem de São Vicente, o padroeiro dos vinhateiros. Com uma equipe afinadíssima, comandada pela sommelier Lis Cereza, formada em Nutrição e Gastronomia, a casa, com sua chique decoração-colagem e um clima delicioso, convida não apenas à prova e à compra de vinhos - com uma seleção caprichadíssima de vinhos nacionais e importados exclusivos - mas à gastronomia, com a cozinha de bistrô produzida pela chef Luiza Hoffman, um talento da nova geração. É nesse ambiente acolhedor e altamente inebriante que nossos jurados começam a se instalar para a degustação. Não sem antes fazer sinceras declarações de amor ao vinho nacional da atualidade. "No meu blog", revela Didú Russo, um dos jornalistas de vinho mais respeitados da cidade, "relaciono 110 rótulos nacionais que eu serviria a qualquer connâisseur, com orgulho. E desafiando às cegas vinhos chilenos e argentinos top". O lendário José Oswaldo do Amarante, diretor técnico da Mistral, acha o número um pouco exagerado. "Eu ficaria com uma boa vintena de grandes vinhos brasileiros". José Luiz Pagliari, engenheiro químico, enófilo e consultor, membro da SBAV e da ABS, também põe fé no atual estágio dos bons vinhos nacionais. "Quem mora em São Paulo e ainda torce o nariz para o vinho brasileiro não tem ideia da dedicação e do empenho dos produtores do sul. Se provar o vinho no local, vai mudar radicalmente de opinião". Sérgio Inglez de Souza, enófilo, sommelier e atual presidente da SBAV, concorda: "Acompanho e defendo os bons vinhos nacionais. A evolução nos últimos 10 anos foi enorme". Claro que o vinho brasileiro tem vocações específicas - nossos espumantes são indisputáveis. E, em matéria de uvas, a merlot tem a preferência, mas há quem já prefira uvas menos comuns, como cabernet franc e touriga nacional. O analista sensorial Renato Frascino ressalta que os filhos dos antigos produtores do sul foram estudar fora e trouxeram knowhow para promover essa revolução. "E a natureza nos abençoou com um clima privilegiado naquela região".

Lis Cereza, da Enoteca Saint VinSaint, e os cinco jurados GWG, degustam cinco nacionais top de linha

Renato Frascino faz a prova da boca: a acidez equilibrada é hoje uma marca registrada dos melhores tintos brasileiros

Começam os trabalhos

Chega o número 1 dos cinco vinhos da tarde. Os jurados , por unanimidade , preferiram bebê-los às cegas , par a aumentar a emoção e os enigmas do vinho nacional. Frascino já lhe nota a cor, um vermelho vivo. "O vinho nacional não tinha essa cor, parecia aguado". Didú Russo leva-o ao nariz e comenta : "Gosto da personalidade aromática. Lembr a óleo de casca de mexirica . Mas gostaria de bebê-lo daqui a 10 anos". Frascino nota-lhe agora, na boca, ácidos equilibrados e um tanino não-agressivo. Amarante aprecia seu aroma complexo, a boca equilibrada e um final de boca igualmente harmonioso. Lis Cereza gosta de sua autenticidade: "Não é exagerado. Não tenta imitar chilenos ou argentinos". Aliás, os enófilos destacam que, embora mais perto dos terroirs de outros países sul-americanos, os terroirs gaúchos e catarinenses, seguindo sua vocação, dão origem a vinhos mai s para Velho Mundo - não vinhos densos, com muita madeira e potência daqueles países. Amarante comenta que é o público que pede vinhos mais potentes. Didú Russo comenta: "É um engano buscar o antigo padrão do Chile, que a esta altura já se inspira nos Bordeaux. Sergio Inglez de Souza também ressalta no vinho número 1 a boca redonda de fruta madura. Pagliari não vê complexidade no aroma mas, na boca, uma certa estrutura, "para acompanhar comida trivial, talvez uma carne assada de panela".

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